
(imagem retirada do site oficial dos Paralamas)
Uma história paralâmica...
"Eu vim do norte com um cachorro rabugento e agora estou com raiva de tudo porque fui multado só porque entrei com meu carro velho pela contramão (estava sem óculos). Qual é seu guarda de escudo transparente, cacetete e capacete reluzente. Luiz Inácio já avisou que o Expresso do Oriente rasga a noite passa rente rumo a Lanterna dos Afogados onde estou te esperando sentada no asfalto sem perceber as marcas de sangue, terra e cocaína. E quem vai pagar as contas desse amor de música ligeira que às vezes dorme numa caixa, numa gaveta ou num beco escuro onde explode a violência? Você que é tudo pra mim diz não saber o que houve de errado e que o meu erro foi crer que Vovó Ondina não era gente fina, e agora "tudo" justifica essa dor. Até que num dia qualquer eu li no céu o teu nome tenso sob o sol. Quem via amor ali? Mas eu sei que lá em algum lugar ficou aquele amor que não é mistério nem destino: É somente uma onda de amor que me contamina como um sábado de sol. Agora pare e repare nas plantas tão verdes, neste dia tão cinza, em como o mundo é desigual: De um lado este carnaval, de outro um tísico à mingua espera a tarde inteira para ver Os Paralamas do Sucesso que vieram tocar na capital. Is a party. Veio todo mundo: a rádio e a tevê, e eu fiz questão de ir lá ver e consegui enxergar com meus olhos que vão de bicicleta. Quero uma invenção que faça o tempo parar esta tarde. Quando se for o sol que o som desse show nunca acabe. Nem no belo dia em que o sol do amor e a sombra da paixão possam ajoelhar e te chamar com toda a força. Então, quando anoiteceu, nenhuma luz se apagou e la bella luna de Cosmo também veio batê lata, tonel e garrafa d'água hasta el amanhecer. Mas será que vai chover? Sim, chove à noite, chove mas ninguém dá atenção pois outra beleza vocês têm que navega imprecisamente por dentro de nós. Sejam sempre vocês. E eu às vezes fico à pensar em outra vida em que não assaltem a gramática, não violentem a métrica, nem metam poesia aonde não deviam. E já não penso em nada disso pois este não é o meu país, não é minha cidade e não é o nosso amor: é a memória de versos que vasculham o coração, alegrias compradas à prazo, da vontade de te encontrar e o motivo eu já nem sei se te amo pra sempre ou pra nunca mais. Porque descobri enfim os tais cenários da dor que eu senti. Mas tudo isso me faria feliz, absurdos me fariam feliz e se eu queria enlouquecer essa é a minha chance: eu sinto à toda hora essa coceira esse calor. Mas eu tou em outra rota, eu quero as coisa certas. Mas existe uma coisa que eu queria esquecer: que por um instante eu duvidei e o sangue então se derramou em vão pela cidade dos punhos fechados na vida real. Uma bala cega, sem destino foi no peito da mocinha que se perdeu olhando o sol se pôr. Não foi por obra do acaso: tinha mesmo que acontecer. Tudo parece normal. Um dia a menos, um crime a mais... É preciso coragem pra não desistir e não achar que tudo que vivemos foi em vão, é preciso sangue frio pra ver que o sangue é quente e que às vezes o covarde é o que não mata, às vezes é o infiel o que não trai. Espero um milagre, um sinal de Deus: O recomeço é uma forma de se encontrar. Mas eu tenho que aprender a dizer tudo o que sinto por você. Mas eu tenho cagaço de descer ladeira a baixo. Então eu dobro a esquina, eu vou na onda, pego carona na multidão esperando que algum fato emocionante venha ocorrer naquela gravidade onde o homem flutua. Hoje, ontem outro dia já passou. Agora não adianta: Não vai voltar o tempo, os dias. Mas sei que não se pode terminar assim. Espere quase um segundo: Vou sair pra ver o sol, porque ele já vai se pôr no mar one more time... "
Thaís Romão Morellato (fã da banda)